Exercício atrasa envelhecimento?

2014-11-23


Hoje em dia já podemos afirmar que é possível  chegar aos 80 anos com uma capacidade aeróbica ou força muscular comparável a indivíduos com 50-55 anos não praticantes de exercício. Isto é possível se nos mantivermos activos, praticando exercício regular, tanto aeróbio como de força. Este “atrasos” na idade funcional são clinicamente significativos pois baixos niveis destas capacidades físicas estão associados a morte prematura.
Então será que a fragilidade associada ao envelhecimento será um processo genético modificável pelo exercício?
A resposta é sim: na realidade a inactividade fisica acelera o processo de fagilidade associada ao avanço da idade. Os mecanismos moleculares associados ao declínio da capacidade fisica à medida que se envelhece não estão ainda totalmente claros.
A falta de actividade física induz mecanismos conhecidos do ponto de vista evolutivo: ou se usa ou se perde a função.
Existiu sempre vantagem de sobrevivência para os indivíduos fisicamente mais aptos, inclusivé do ponto de vista da reprodução, defesa territorial, etc. Esta é uma razão plausível e aceite, a de que estaremos programados para manter um bom nível de condição física ao longo da vida desde que exercitemos o suficiente.
Mediante a inactividade física, terá o ser humano alguma vantagem em perder massa muscular? A atrofia da massa muscular mediante a sua falta de uso está de acordo com o mecanismo de conservar energia. Os humanos são exímios na arte de conservar energia, a epidemia de obesidade é uma grande prova disso. Sabemos que o músculo atrofia cerca de 20-50% durante a imobilização total, com gesso, por exemplo. Esta é mais uma prova de que tendemos a conservar energia e a atrofiar todas as estruturas que não se encontram em uso a favor do sistema. Aliás, a epidemia actual de obesidade estará também relacionada com esta tendência metabólica de conservação de energia.
O nosso sistema tem uma capacidade finita de armazenar glicogénio, principalmente em individuos sedentários. Este armazenamento poderá corresponder a 900Kcal. Desde os primórdios da nossa evolução, mediante períodos de jejum por escassez alimentar, o mecanismo de perda de massa muscular poderá ter significado uma vantagem de sobrevivência. Durante o jejum, nomeadamente nocturno, acontece dádiva de aminoácidos presentes no músculo esquelético, para produção de glicose via hepática (gluconeogénese), assegurando a glicémia e as funções do sistema nervoso central, entre outras. A perda de massa muscular associada à escassez alimentar é uma evidência de que o músculo “doa” a favor da sobrevivência do sistema.
Hoje em dia, as razões que nos levam a perder massa muscular são inúmeras. Desde o sedentarismo, passando pela excessiva acidez da dieta, inflamação sistémica, infecções, sejam virais ou bacterianas, muitas vezes várias destas condições em simultâneo! Um mecanismo que em tempos nos conferiu vantagem de sobrevivência poderá neste momento acrescer risco de complicações cardio-metabólicas, que incluem as doenças que mais matam nos países ocidentais: AVC e enfarte do miocárdio. A sarcopénia (perda de massa muscular) resultante desse mecanismo, nomeadamente aquela associada ao sedentarismo e inflamação, mais do que ao envelhecimento, de facto agrava todas as condições cardio-metabólicas.
Leitura recomendada:
Booth and Zwetsloot, 2010 – Scandinavian Journal os Medicine & Science in Sports