Estilo de vida e gordura corporal

Já não somos caçadores-recolectores, algo que a nossa genética não sabe.
Digamos que o nosso corpo e os nossos genes esperam algo que já não existe. Por isso instala-se a doença crónica. Até há algumas gerações atrás, as causa de morte seriam infecções e acidentes, principalmente. Hoje em dia, nos países industrializados, são doenças provocadas pelo estilo de vida: falta de exercício, alimentação processada, toxicidade...
Existem populações contemporâneas (que vivem actualmente, em outros locais do planeta) que têm um estilo de vida semelhante ao ancestral, em que a alimentação é totalmente natural, e a actividade física é diária e espontânea. Em que ninguém pensa em ir ao ginásio, pois o ginásio só é necessário devido a uma estilo de vida sedentário e urbano.
Um destes exemplos é o povo de Kitava (Papua, Nova Guiné), entre o qual não existem os chamados “ataques cardíacos” nem doença coronária isquémica.
Nesta população, em que foram avaliados cerca de 151 homens e 69 mulheres entre os 14 e os 87 anos, foi usado como comparação um grupo de pessoas oriundas da Suécia. Comparados com os suecos, as pessoas de Kitava apresentaram menor pressão arterial diastólica (mínima), menor Indice de Massa Corporal (relação entre peso e altura), e prega de gordura do braço (tricipital). Os autores do estudo atribuíram à baixa massa gorda e à baixa pressão arterial, as causas da ausência de doença cardiovascular.
Fonte: “Cardiovascular risk factos in a Melanesian population apparently free from stroke and ischaemic heart disease: the Kitava study” – artigo publicado na revista científica Jornal of Internal Medicine em 1994, pelos autores Lindeberg S, Nilsson-Ehle P, Terént A, Vessby B, Scherstén B.

Na maior parte dos casos, não!
Se vivermos a nossa vida de forma ativa, caminhando, subindo escadas, pegando nos sacos de compras, fazendo as tarefas domésticas, brincando com os nossos filhos, já estamos a realizar atividade física, obviamente. Usamos naturalmente os músculos abdominais, pois eles são bastante necessários para estabilizar o nosso corpo. Contudo, na esmagadora maioria dos casos, nos dias que correm, esta atividade espontânea não é suficiente para otimizar o gasto energético nem a funcionalidade dos nossos músculos, nomeadamente os abdominais. Vivemos vidas sedentárias, guiamos automóveis em vez de caminhar, usamos elevadores em vez de escadas, trabalhamos horas seguidas sentados, recostados em cadeiras superconfortáveis, nem sempre ergonómicas, em que nem a musculatura postural precisamos de ativar.
No âmbito dos estilos de vida urbanos atuais, com o passar dos anos, a perda de massa muscular torna-se praticamente inevitável.
Devo reforçar que a CONTRAÇÃO MUSCULAR pode ser um GRANDE MOTOR de gasto calórico no dia-a-dia, para além da energia que gastamos necessariamente para manter as nossas funções fisiológicas normais, como a função digestiva e o bom funcionamento do Sistema Nervoso Central, e para além da energia que gastamos para manter um tónus muscular mínimo para realizar as tarefas do nosso dia-a-dia.
Mas para que gastemos mais calorias no dia-a-dia, é necessário usar a função muscular de forma sistemática e com intensidade suficiente. Usamos mais gorduras como combustível em exercícios de intensidade mais baixa, enquanto que em exercício intenso, usamos principalmente açúcar armazenado no músculo (glicogénio muscular) e açúcar que circula no sangue (glicose).

Lamento informar que não. A prática de exercício não compensa os maus hábitos alimentares. São pilares da saúde diferentes, nenhum compensa o outro, mas agravam-se e promovem-se mutuamente. Muitas pessoas pensam que, por praticarem exercício, uma má alimentação não será tão perigosa para a saúde.
Isso não é correto. Uma alimentação processada, cheia de açúcar, aditivos cancerígenos e substâncias ou alimentos inflamatórios em geral, vai ser SEMPRE prejudicial à saúde, mesmo que a pessoa não engorde tanto devido à prática de exercício. Quem não ouviu já dizer “vou ao ginásio para poder comer o que me apetece”? Esta é uma frase bastante comum, contudo, só se usufrui de boa saúde e boa forma se a alimentação for saudável e houver prática regular de atividade física adequada ao estado de saúde e nível de aptidão física do praticante.
A prática de atividade física regular ou exercício constitui uma ferramenta totalmente indispensável na abordagem à melhoria cardio-metabólica e ao combate à obesidade. Quando nos referimos a exercício, é uma forma de atividade física planeada, estruturada, de forma a atingir um ou mais objetivos e com base em princípios estudados.
O exercício adequado deve, idealmente, ser prescrito individualmente. O exercício poderá não ser inócuo para pessoas descondicionadas, destreinadas, com dores de costas, com hipertensão, etc. O ideal é que um treinador conhecedor e estudioso entenda as implicações metabólicas do tipo de exercício que prescreve, tal como as mecânicas (adequado à coluna e todas as restantes estruturas articulares e musculares, perfil postural, etc).

Não! A elevação exagerada da pressão dentro da cavidade abdominal, propiciada por esforços intensos ou por muitos dos exercícios abdominais comuns, principalmente quando realizados por pessoas com grande volume abdominal (mas não só) pode conduzir à formação de hérnias discais, abdominais, inguinais e umbilicais, tal como ao enfraquecimento da musculatura que evita a incontinência (a que controla os esfíncteres e sustenta os órgãos). Quando esta musculatura se encontra enfraquecida podem ocorrer perdas de urina com alguma frequência, por exemplo. Noutros casos, devido a partos com recurso a episiotomia (o corte vaginal), muitas mulheres poderão ver a sua situação agravada ao realizar certos tipos de exercícios, que aumentam a pressão dentro do abdomen.
A musculatura da parede abdominal tem por função suster a bola de fluido e material visceral da cavidade abdominal.
Existem formas de trabalho abdominal específicas que podem ser indicadas de forma personalizada, e conduzidas por profissionais que dominem a anatomia funcional do corpo humano. Por exemplo, o método de ginástica abdominal hipopressiva, que inclui momentos de apneia. Como qualquer modalidade, também tem algumas contraindicações que devem ser tidas em conta, como a hipertensão. Outras metodologias avançadas, prescritas por profissionais estudiosos e conscientes, poderão ser adequadas na reeducação da função e ativação muscular.